5# INTERNACIONAL 29.1.14

     5#1 DAVOS, CUBA
     5#2 O FOGO CRUZADO DE KIEV
     5#3 EM FASE TERMINAL
     5#4 NA ALEMANHA!?

5#1 DAVOS, CUBA
Depois de dizer na Sua que prioriza a infraestrutura nacional, Dilma parte para Havana para inaugurar um porto financiado pelo Brasil.

     Durante trs anos, o Frum Econmico Mundial, em Davos, na Sua, foi desprezado pela presidente Dilma Rousseff. Para seus assessores, o mais importante convescote mundial, que pe para conversar os principais banqueiros, polticos, empresrios e executivos do planeta, era muito cartaz para pouca ao. O orgulho no resistiu  necessidade. Na esperana de conter a sada de investidores do Brasil e, mais ainda, atrair outros dispostos a arriscar no pas, Dilma discursou na sexta-feira 24 em Davos. "Quero enfatizar que ns no transigimos com a inflao", disse ela a um grupo de executivos. A presidente tambm citou o programa de infraestrutura. "O sentido (do programa)  enfrentar os gargalos gerados por dcadas de subinvestimentos agravados pelo forte crescimento da demanda nos ltimos anos", disse. O poder de convencimento da presidente, contudo, foi minado na vspera, quando consultorias e bancos mundiais relataram o contrrio, apontando o dedo para gastos pblicos sem controle, desequilbrio nas contas fiscais, inflao em alta e infraestrutura deficiente. "A interveno governamental continuar forte", informou o Deutsche Bank. 
     Em uma rpida troca de roupa, a presidente embarcaria de Davos direto para Cuba. Longe dos capitalistas, banqueiros e empresrios, ela participa nesta semana, em Havana, de um encontro da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). Mais  vontade, Dilma vai celebrar a ditadura dos irmos Castro, agradecer pelos mdicos enviados ao Brasil a preo de ouro e, se sobrar tempo, inaugurar o moderno Porto de Mariel. 
     A obra  de fazer inveja a qualquer exportador brasileiro e de deixar os mais ricos visitantes de Davos de boca aberta. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econmico e Social (BNDES) investiu 682 milhes de dlares na reforma e na ampliao do porto, realizadas pela Odebrecht. Recapitulando: poucos dias depois de falar de subinvestimentos em infraestrutura no seu prprio pas, a presidente pretendia prestigiar um grande investimento em infraestrutura em outro pas feito em grande parte com dinheiro brasileiro. Alguns dos terminais j esto prontos e, ao redor, ser construda uma Zona Especial de Desenvolvimento com 465 quilmetros quadrados. A rea, equivalente  de Curitiba, j recebeu 100 quilmetros de rede de gua, 12 quilmetros de ferrovia e 70 quilmetros de estradas pavimentadas e em pista dupla. As indstrias estrangeiras que decidirem se instalar ali podero proporcionar uma renda miservel aos trabalhadores, enquanto a ditadura confiscar a maior parte dos salrios, um modelo semelhante ao do programa Mais Mdicos. Em meados de 2012, o ministro Fernando Pimentel, do Desenvolvimento, Indstria e Comrcio Exterior, decretou que o contrato para o financiamento do Porto de Mariel ser confidencial at 2027. Ao tomarem conhecimento do fato em uma reportagem de VEJA ("Isso  que  camaradagem", 8 de janeiro), senadores e deputados prometeram levar ao Congresso a discusso sobre a caixa-preta do BNDES. J era hora.


O investimento em Cuba  uma falta de respeito com o produtor brasileiro. Nossa infraestrutura logstica est trinta anos atrasada." 
CARLOS FVARO, presidente da Associao dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja) 

"Qual  a necessidade de fazer uma operao de crdito entre dois Estados e pedir confidencialidade? A imposio desse segredo alimenta mil e uma interpretaes." 
RICARDO FERRAO (PMDB-ES), presidente da Comisso de Relaes Exteriores no Senado 

Ningum sabe qual ser o custo desse financiamento em Cuba para os brasileiros. No estamos em condies de subvencionar obras alheias em pas algum." 
KTIA ABREU (PMDB-TO), senadora e presidente da Confederao Nacional da Agricultura e Pecuria do Brasil (CNA) 

O principal empecilho nos nossos portos  a quantidade de entidades com as quais o exportador deve lidar. A burocracia continua enorme." 
ANTNIO JORGE CAMARDELLI, presidente da Associao Brasileira das Indstrias Exportadoras de Carne (Abiec) 

O acesso aos portos  extremamente problemtico e caro. Alm disso, eles no funcionam durante a noite por no terem iluminao. Faltam investimentos." 
LUIZ MOAM, presidente da Associao Nacional dos Fabricantes de Veculos Automotivos (Anfavea)

COM REPORTAGEM DE LETCIA NASA


5#2 O FOGO CRUZADO DE KIEV
Os manifestantes da Ucrnia, formados at por ultranacionalistas, querem ser parte da Unio Europeia, mas o governo e as foras de segurana do pas esto nos braos da Rssia. Nenhum lado pretende ceder.
NATHALIA WATKINS 

     Nos conflitos que tomaram as ruas do mundo nos ltimos anos, a lio bvia  que as disputas s se encerram quando um dos lados, o mais forte, consegue se sobrepor ao mais fraco. Na Sria, ainda sem soluo  vista, a guerra civil j matou 130.000 pessoas. No Egito, onde os militares no pouparam atrocidades, os rivais da Irmandade Muulmana foram lanados na clandestinidade, e a situao se acalmou. Na Ucrnia, pas que durante dcadas foi comandado pela Unio Sovitica e no qual um em cada quatro habitantes fala o idioma russo, duas foras opostas esto medindo seus msculos. Uma delas  o governo do presidente Viktor Yanukovich e seu aparato repressor. A outra  uma mistura de torcedores de futebol, jovens universitrios, grupos de direita nacionalista, senhoras religiosas de classe mdia e polticos de oposio que colocaram como meta trs coisas quase impossveis: a renncia do presidente, a antecipao das eleies e uma aproximao com a Unio Europeia. Em uma reunio com os representantes da oposio, o presidente Yanukovich no cedeu em nenhuma das exigncias. O seu lado ainda  o mais forte. 
     Os protestos na principal praa de Kiev, a Maidan, comearam h dois meses como resposta  deciso de Yanukovich de barrar um acordo de livre-comrcio com a Unio Europeia (UE). A maioria dos ucranianos deseja a aproximao de seu pas com as democracias vizinhas. O presidente russo Vladimir Putin no perdeu tempo e assegurou-se de que Yanukovich ficaria na sua esfera de influncia ao comprar 15 bilhes de dlares em ttulos da dvida ucraniana e ao reduzir o preo do gs natural exportado para o pas. Para uma economia em frangalhos, foi um alvio. Os protestos arrefeceram e, na semana passada, Yanukovich obteve no Congresso a aprovao de um conjunto de leis, inspiradas nos mecanismos de represso a opositores da Rssia, que probe o uso de mscaras e capacetes nas demonstraes e as carreatas com mais de cinco veculos. Organizaes no governamentais que recebem dinheiro estrangeiro sero classificadas como "agentes externos". A lei, vista como provocao pelos ucranianos, teve efeito contrrio. O povo voltou s praas nevadas, desta vez disposto a quebrar tudo. Manifestantes lanaram coquetis molotov contra os soldados, que responderam com balas de borracha. Cinco pessoas morreram. O governo ucraniano demonstrou estar bem alinhado com a estratgia russa de intimidao dos cidados: com base em informaes fornecidas pelas empresas de telefonia, identificou o nmero de telefone das pessoas presentes na praa e tratou de fazer chegar a elas a seguinte mensagem de texto: "Querido cliente, voc foi registrado como participante de um distrbio de massa". 
     O futuro do pas depende da posio que vo adotar os oligarcas, como so chamados os grandes empresrios cujas atividades privadas dependem da influncia que possuem nos assuntos de Estado. "Nada menos que quarenta membros do Parlamento devem obedincia a apenas dois desses oligarcas", diz o cientista poltico francs Laurent Vinatier, especialista em Rssia. Por enquanto, ningum, nem os lderes de oposio, parece capaz de conter a fria dos manifestantes. Na quinta-feira 23, na cidade de Lviv, eles ocuparam o gabinete de um governador aliado do presidente e o obrigaram a escrever uma carta de renncia. Padres ortodoxos foram para as praas cheias de pedras para pedir paz, sem muito sucesso. Entre os manifestantes, veteranos da invaso sovitica do Afeganisto davam instrues aos jovens. O grupo que assumiu a linha de frente foi o Setor Direita, composto de 300 integrantes da torcida organizada do time de futebol Dnamo. J os nacionalistas cristos do Trident grupo com uma indumentria que mais se assemelha  de personagens de filme de apocalipse, avanavam em direo s barreiras policiais protegidos apenas por uma cruz pintada sobre escudos feitos em casa. Quando ultranacionalistas tomam a frente de um movimento que quer se aliar a uma organizao supranacional, como  a UE,  sinal de que h algo mais em jogo. Simples: eles no querem que seu pas receba ordens dos russos. 


5#3 EM FASE TERMINAL
Em desespero, o governo argentino desiste de tentar defender o valor do peso em relao ao dlar e acende o pavio de uma inevitvel e fatal exploso inflacionria.
NATHALIA WATKINS

     Ao viverem em um pas sempre  beira de uma crise, os argentinos se acostumaram a guardar suas economias em notas de dlar debaixo do colcho. Nos ltimos anos, o excessivo intervencionismo estatal tambm levou os grandes investidores a tirar do pas todo o dlar que tinham, para aplic-lo em lugares mais seguros. Nos dois casos, o efeito  o mesmo: o aumento no valor do dlar e a desvalorizao do peso. Desde 2011, o governo comeou a tomar medidas pontuais para controlar o cmbio, sem nunca admitir oficialmente. Os gastos no exterior, as importaes e as compras de dlar foram desencorajados. O remdio, porm, terminava agravando a doena. A cada novo decreto, os argentinos e os empresrios ficavam ainda mais temerosos e compravam mais dlar, elevando a cotao. Na sexta-feira 24, Axel Kicillof, ministro da Economia, e Jorge Capitanich, chefe do gabinete da Presidncia, surpreenderam a todos anunciando que o cmbio estar livre a partir do dia 27. A medida  parcial, restrita s pessoas fsicas e sujeita  aprovao da Afip, a Receita Federal argentina. No se sabe ainda como vai funcionar, se  que vai mesmo. 
     Liberar o cmbio  o que tm feito as economias mais avanadas. Para que tudo transcorra bem,  preciso que o pas seja competitivo. Ou seja, que exporte bastante. Esse no  o caso da Argentina. Em 2013, o saldo das contas externas ficou em 9 bilhes de dlares, um volume 28% menor que o do ano anterior. Sem outras medidas que venham a impulsionar a economia, as consequncias mais previsveis da liberao do cmbio so a desvalorizao do peso e a elevao da inflao, que pode passar dos 30% neste ano. "Aliviar o controle cambial sem um plano contra a inflao  quase suicdio", diz o economista Matas Carugati, da consultoria Management & Fit, de Buenos Aires. 
     Como nada foi dito ainda sobre outras medidas, tudo indica que o anncio do gabinete de Cristina Kirchner tenha sido feito na total improvisao. O que entortou as polticas econmicas foi o esvaziamento das reservas internacionais, que estavam em 30 bilhes de dlares (o Brasil tem mais de 375 bilhes). Antes da medida sobre o cmbio, ainda na quinta-feira 23, Kicillof mandou vender 120 milhes de dlares no mercado negro para conter o pnico, sem sucesso. As reservas so necessrias para pagar dvidas no exterior. Na semana passada, Kicillof havia se reunido com credores do Clube de Paris e voltou com as mos abanando, sem conseguir uma renegociao da dvida, de 9 bilhes de dlares. 
     Quando desembarcou em Buenos Aires, ele deparou com uma amarga realidade. Com o dlar paralelo alto e distante do oficial, os poucos investidores preferiam reter os investimentos, j que no queriam colocar seus dlares a 8 pesos e converter seus lucros no outro cmbio, mais caro. O mercado imobilirio estava paralisado, pois na Argentina os imveis so vendidos em dlar, e, com a moeda estrangeira em alta, os compradores necessitavam de mais pesos para compr-los. Os exportadores que precisavam liquidar mercadorias preferiam mant-las em estoque. A desvalorizao do peso pode at ajudar os exportadores argentinos a ganhar mercados no exterior com produtos mais baratos, mas isso leva tempo. Desde o incio do governo de Cristina Kirchner, o pas ficou 33% mais caro em relao a seus parceiros comerciais. 
     A desvalorizao, contudo, no far milagre sozinha. Se as incertezas continuarem altas, mais argentinos vo comprar dlares, em um processo contnuo. O Brasil tem motivos para se preocupar. Mais de 8% das exportaes brasileiras vo para o pas vizinho e no tm outro comprador. "O comrcio bilateral pode ser afetado e a crise cambial pode contagiar o Brasil", diz o economista Roberto Luis Troster. Isso s no ocorrer se os investidores internacionais continuarem convencidos de que as fragilidades da economia brasileira no chegam aos ps das maluquices do trio Cristina-Kicillof-Capitanich. 


5#4 NA ALEMANHA!?
Pois , no conseguem terminar o novo aeroporto de Berlim e outras obras pblicas se arrastam h anos  e milhes de euros a mais  para ser completadas.
MRIO SABINO, DE BERLIM

     Os brasileiros j nem sentem vergonha ou indignao com o atraso de obras pblicas e a diferena  sempre para muito mais  entre o preo original dos projetos e o seu custo final. Enxergam o fenmeno, por assim dizer, como algo to natural quanto os temporais de janeiro que, todos os anos, destroem casas e causam mortes, apesar das promessas das autoridades de que nada daquilo se repetir no prximo ano. Basta verificar o caso dos estdios da Copa do Mundo, que custaro pelo menos o dobro do anunciado, e o da infraestrutura de transporte, que,  claro, no vai ficar pronta a tempo para a competio  se  que algum dia ser completada. 
     Credite-se essa nossa carncia tambm a um certo fatalismo nacional. Se existe um pas antpoda ao Brasil,  a Alemanha. Mas at mesmo l nem tudo se passa como deveria. 
     Os alemes esto morrendo de vergonha do que est ocorrendo com o novo aeroporto de Berlim. Planejado para ser inaugurado em 2010, depois em 2011, em seguida em 2013, os responsveis pela sua construo agora dizem que ele s entrar totalmente em operao em 2015. Quando ainda estava na prancheta, calculou-se que o aeroporto sairia por 2,3 bilhes de euros. Pois ele j bateu em 4,3 bilhes. E, como se no bastasse, quatro operrios morreram nos seus andaimes. A inteno era que a capital da Alemanha se tornasse um hub capaz de rivalizar com Frankfurt, sede de um dos aeroportos mais movimentados do mundo. Mas as previses foram ficando mais modestas. Dos esperados 45 milhes de passageiros por ano, baixou-se para 27 milhes e, agora, imagina-se que atenda apropriadamente 17 milhes. 
     A construo est sob a administrao da prefeitura de Berlim e do governador do Estado de Brandemburgo, no qual ela se situa. Foi o grande equivoco, afirma-se na Alemanha. Os polticos alemes podem ser menos desonestos do que os brasileiros (o que no  uma virtude rara, convenha-se), mas tambm no primam pelo devido escrpulo com o dinheiro pblico. Alm disso, no geral, so provincianos (efeito do extremo federalismo que os faz pensar pequeno) e menos eficientes do que os cidados pelos quais so eleitos, gente mais afeita aos estudos. Prova disso  justamente a quantidade de problemas de projeto, gerenciamento e execuo contabilizados no aeroporto Willy Brandt (nome de um dos mais carismticos ex-primeiros-ministros da ento Alemanha Ocidental). 
     VEJA teve acesso s suas dependncias. So luxuosas, com balces que lembram os mveis do arquiteto brasileiro Isay Weinfeld, e obras de arte moderna projetadas para o que era para ser uma vitrine do pas mais rico da Europa  e que, como tal, conta com moedas de centavos de euro incrustadas no cho. Ao contrrio, porm, do que dizia o escritor irlands Oscar Wilde, no d para julgar o complexo pela aparncia. O nmero de erros chega a 66.500, de acordo com um levantamento feito durante oito meses. Os mais perigosos so em relao  segurana contra incndios. Em caso de emergncia, a maior parte dos alarmes e dos sprinklers na rea de check-in no funcionaria. E elevadores entrariam em pane se o aeroporto pegasse fogo. 
     Soa incrvel, mas certas escadas rolantes so curtas demais e apagar as luzes se tornou um problema por causa de um sistema eletrnico muito avanado se comparado aos usuais interruptores. Descobriu-se, ainda, na ultimssima hora, que faltam pontes de embarque para a quantidade de passageiros que se queria. 
     Enquanto isso, os turistas e homens de negcios que chegam ou partem de Berlim enfrentam o aeroporto de Tegel, que parece uma velha rodoviria brasileira. Os embarques e desembarques se do por meio de nibus, a comida das lanchonetes  intragvel, o wi-fi  uma fantasmagoria e os puxadinhos entre os terminais so uma vergonha at para os padres de Cumbica. Para no falar da demora na entrega das bagagens nas poucas esteiras. A mdia  de trinta a quarenta minutos para cada voo. 
     O aeroporto Willy Brandt  apenas a maior das encrencas. A nova sala de concertos de Hamburgo, prevista para abrir em 2010, s ser inaugurada em 2016, a um custo de 575 milhes de euros, o dobro do preo inicial. Em Colnia, uma linha de metr cuja construo comeou em 2004 s dever funcionar em 2019. O preo pulou de 780 milhes de euros para mais de 1 bilho. 
     Ah, se l  assim, ento as coisas no so to graves no Brasil... No se deixe levar pela condescendncia, leitor. Em primeiro lugar, porque, em que pesem as trapalhadas, na Alemanha tais absurdos continuam a ser exceo. E, depois, a evidncia  clara: dois, trs ou quatro erros numa latitude no fazem um nico acerto em outra. Melhor, portanto, sentir vergonha ou indignao. 


